quarta-feira, 30 de novembro de 2016

DEZEMBRO/2016: UM FREGUEZ FALLAZ QUE FAZ JUS AO BIS


No mez passado abbordei o caso dos graphemas "AU" e "ÁO" e, para fazer
um parallelo, mencionei minha coherencia com o principio da minima
accentuação. Citei LUIZ e PORTUGUEZ como exemplos do quanto a
orthographia preservacionista prescinde do accento agudo. Tambem alludi
ao facto de que os leitores deste bloguinho são attentos observadores,
promptos para me pegar no pullo, ou pelo menos para tentar pegar-me.


Agora é o leitor Oswaldo quem me interpella:


- Você defende as terminações com a lettra "Z" para não ter de escrever
LUIZ como LUÍS, mas escreve ASSIS e PARIS. Como explica mais essa
incoherencia?


Explico-a porque a incoherencia não é minha. A orthographia não é uma
sciencia exacta, cabendo excepções a quaesquer regras, ou antes,
convenções que recommendo sem tentar impor. ASSIS e PARIS são formas que
difficilmente alguem achará como ASSIZ e PARIZ, embora o proprio Julio
Nogueira admitta PARIZ. Vejamos o que elle diz em seu MANUAL
ORTHOGRAPHICO BRAZILEIRO e depois accrescentarei meus commentarios.


{A constricta "ZÊ" representa-se por "Z": [...] como lettra final de
grande numero de palavras agudas e nos seus pluraes e derivados: GAZ,
PAZ, RAPAZ, TIMIDEZ, FRANCEZ, PORTUGUEZ, VEZ, AUDAZ, LIZ, RAIZ, NARIZ,
PAIZ, JUIZ, PARIZ, NOZ, VOZ, FEROZ, ATROZ, LUZ, CRUZ. Esta indicação de
cunho practico appoia-se no facto de ser o "Z", em innumeros casos, a
transcripção de um "C" latino. Os derivados de formação popular manteem
a mesma graphia: RAPAZIADA, FRANCEZMENTE, ENRAIZAR, JUIZADO, VOZEIO,
VOZEAR, FEROZMENTE, LUZEIRO, CRUZAR, CRUZEIRO, etc.}


Obviamente, Nogueira faz suas excepções, como JUS, JESUS, MOYSÉS,
CAIPHÁS, que eu também levo em compta, mas o facto é que a etymologia e
a tradição escripta não são sufficientes para estabelescer um paradigma
para todos os casos. Graphamos SATANAZ mas temos escrupulo de graphar
CAIPHAZ ou JESUZ. Por que? A resposta talvez esteja justamente na praxe
consuetudinaria. Basta consultar as fontes lexicographicas. O
diccionario Lello consigna SATANAZ com "Z" ao lado de CAIPHÁS com "S",
bem como ASSIS e PARIS. O de Aulete, como não é encyclopedico, só
registra adjectivos de nomes proprios, mas não verbeta PARISIENSE e em
FRANCISCANO não menciona "de Assis"; comtudo, no verbete JACOBINO
menciona PARIS com "S". Outrosim, nosso Assis mais famoso, o Machado,
não usava "Z", emquanto Delphino, que era Luiz, não usava "S". Está ahi
a differença da praxe, diaphana e crystallina.


Em summa, ninguem precisa ter dor na consciencia si se vê às voltas com
taes incoherencias, pois ellas fazem parte do complexo universo lexico
do idioma, para o qual nenhuma academia tem poderes de legislar em
character obrigatorio.


ASSIS vem do italiano ASSISI e PARIS não do grego mythologico PARIS (que
é paroxytono e accentuado como PÁRIS pela graphia phonetica), mas da
tribu celta PARISII. Em todo caso, paresce claro que os nomes proprios
teem sua peculiar morphologia e nem sempre podem ser enquadrados pelos
mesmos criterios que regem os substantivos communs do typo agudamente
terminado em "Z" de modo a dispensar o accento. Mesmo entre estes ha
necessidade de distinguir NOZ de NÓS (pronome e plural de NÓ), VOZ de
VÓS (pronome), VEZ de VÊS (verbo VER) ou PAZ de PÁS (plural de PÁ),
evidenciando que ha logar para as mais diversas situações accentuadas,
impossiveis de evitar.


Caso o leitor Oswaldo não se satisfaça com taes explicações, não vou
ficar indignado quando elle quizer graphar ASSIZ ou PARIZ, desde que
elle siga o mesmo criterio em JESUZ e MOYSEZ, para manter uma coherencia
que, esta sim, será delle e de ninguem mais. Rapaz audaz, esse que quiz
ser meu juiz, hem?


Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
os archivos do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO e de outras obras pertinentes.


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

NOVEMBRO/2016: PÁO COMBINA COM BOCETA?


Nós, etymologistas, somos como os monarchistas: poucos mas mais
realistas que o rei. Tão zelosos que nada deixamos excappar. Assim são
os seguidores deste bloguinho de notas. Pegam no meu pé emquanto não os
convenço de que as convenções que adopto, quando não estão embasadas na
pura etymologia, baseiam-se no factor consuetudinario (a forma historica
mais arraigada) ou, em ultima analyse, numa questão de coherencia,
sempre visando fixar os graphemas menos simplificados, em funcção duma
esthetica classicizante e (Por que não?) sophisticada.


Este preambulo vem a proposito da questão levantada por um leitor nos
seguintes termos: ja que recommendo, em muitos casos que o systema mixto
tornava indecisos, a preferencia pela vogal "O" em detrimento do "U",
como em BOCETA ou MOLEQUE, qual a razão pela qual prefiro PAU, MAU e
NICOLAU às formas terminadas em "ÁO" (PÁO, MÁO e NICOLÁO)? "Não seria
incoherente?", pergunta o leitor.


Minha resposta é que, entre duas incoherencias, excolho aquella que
causa effeitos menos damnosos ao conjuncto da obra, ou ao universo
lexico. Primeiramente, cabe lembrar que nem sempre a opção pelo "O"
tinha fundamentação etymologica. A palavra LOGAR, por exemplo, guardava
coherencia com LOCAL, do latim LOCALIS. Entretanto, BOCETA vem de
BUXIS/BUXIDIS e MOLEQUE do africano MULEKE, ou seja, às vezes a opção
pelo "O" seria uma tradição crystallizada no proprio portuguez. Isso não
tira a legitimidade de BOCETA ou MOLEQUE, pois, como accabei de allegar,
o factor consuetudinario pesa tanto quanto a authenticidade etymologica.


No caso de PAU, MAU ou NICOLAU (latim PALUS, MALUS e NICOLAUS,
respectivamente), a tendencia mais correcta seria graphar mesmo com "U".
Assim faço eu, mas deixo a criterio de cada um optar pelas formas PÁO,
MÁO e NICOLÁO, ja que a tradição vem legitimar ambas as excolhas. Minha
coherencia, no caso, é com um principio que chamo da "minima
accentuação", pelo qual dispenso um agudo, um circumflexo, um til ou uma
cedilha sempre que posso, como em LUIZ (em logar de LUÍS), PORTUGUEZ (em
logar de PORTUGUÊS) MAÇAN (em logar de MAÇÃ) ou SUISSA (em logar de
SUÍÇA), donde a conveniencia de graphar PAU em logar de PÁO. Mas ha
ainda outra conveniencia, bem mais practica, principalmente em tempos de
digitação informatizada: o emprego do "U" evita confusões entre o agudo
e o til em palavras como PÃO, MÃO, NÃO, BABÃO etc. em relação a PÁO,
MÁO, NÁO e BABÁO.


Não fica nisso a minha coherencia. Si eu preferisse o graphema "ÁO" ao
"AU", teria de preferir "ÉO" a "ÉU" e escreveria CHAPÉO e CÉO em vez de
CHAPÉU e CÉU. Sim, haveria tradição para me fundamentar, mas, nesse
caso, eu teria de escrever EUROPÊO e LYCÊO quando o som do "E" fosse
fechado. Tambem haveria alguma fundamentação historica para tal, mas,
convenhamos, seria uma plethora de agudos e circumflexos perfeitamente
dispensaveis, não acham? Si um dos maiores problemas da orthographia
reformada é a quantidade de accentos, não precisamos arrhumar tal
problema tambem na orthographia preservada, é ou não é?


A esse respeito, illustro meu commentario com um trecho do MANUAL
ORTHOGRAPHICO BRAZILEIRO de Julio Nogueira:


{O nosso Lyceu de Artes e Officios e o Syllogeu são, pelo menos nas suas
fachadas, LYCÊO e SYLLOGÊO, graphias pouco acceitaveis, não só do poncto
de vista practico como do scientifico. A palavra SYLLOGEU, formada de
elementos gregos pelo Dr. Ramiz Galvão (1904) assim se acha escripta no
seu "Vocabulario" e significa "a casa onde se reunem associações
litterarias e scientificas".}


Apesar de desrecommendar o graphema "ÊO", porem, Nogueira recommenda
"ÉO" em caso da vogal aberta, como em CÉO, CHAPÉO, VÉO, TROPHÉO,
ESCARCÉO, BORNÉO, MAUSOLÉO, BORDÉOS, MONTEVIDÉO. Por isso não fecho
questão, adoptando CHAPÉU mas admittindo CHAPÉO caso a cabeça não seja a
minha, que, aliaz, usa bonné.


Ainda a proposito do termo PAU no sentido phallico e de seu equivalente
feminino BOCETA, nunca é tarde para registrar que o substantivo ROLLA
(que, como synonymo de POMBA, suggeriria a vagina e não o penis)
deveria, por força do factor historico, levar "L" duplicado, até porque
seu formato ROLLIÇO remette ao masculino ROLLO que, como ROL, vem do
latim ROLLUS que, por sua vez, vem de ROTULUS. Dahi que, mesmo sendo
forma corrente no systema mixto, o verbo ROLLAR com um só "L" passou
pela minha tardia correcção, bem como seus correlatos ENROLLAR e
DESENROLLAR, ao lado de ROLLETA, ROLLINHO, ROLLÊ, ROLLEZINHO, ROLLANTE,
etc. Em summa, a todo momento estamos deante de formas apparentemente
simples que, si cuidadosamente pesquisadas, appresentam algo mais
complexo, a despeito da ommissão dos diccionarios, que tendem a
registrar apenas ROTULUS como etymologia de ROLLO, induzindo o
consulente a acceitar as formas simplificadas "ROLO" e "ROLA".


Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
os archivos do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO e de outras obras pertinentes.


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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

OUTUBRO/2016: CHORANDO NO KHORO OU CORANDO NO CHORO?


Antes da questão de fundo a que me reporto mensalmente, quero deixar
registrado o commentario que postei no facebook a proposito dos eventos
septembrinos. Começados os jogos parolympicos, fiquei alliviado ao ouvir
uma entrevista dada pelo amigo Mizael Conrado, hoje vice-presidente do
Committê Parolympico, que pronuncia correctamente a palavra PAROLYMPICO,
pois a palavra OLYMPO e seus derivados jamais perdem a vogal inicial. Ja
o prefixo grego PARA perde a ultima vogal sempre que o pospositivo
começar por vogal. Assim, PARA+ONOMASIA dá PARONOMASIA; PARA+OXYTONO dá
PAROXYTONO; PARA+ESTHESIA dá PARESTHESIA; PARA+ALLELO dá PARALLELO;
PARA+ATHLETA dá PARATHLETA. Em casos como PARAMILITAR ou PARAPLEGICO é
claro que o antepositivo não se altera. Lembrando que em palavras como
PARACHOQUE, PARAPEITO ou PARAQUEDAS o prefixo vem do verbo PARAR e que
na boa orthographia ellas não levam hyphen. Ja expliquei tudo isso neste
blog e não comprehendo por que alguns insistem na erronea forma
"PARALYMPICO", incorrecta até no inglez, idioma em que tambem existem os
equivalentes de PARONOMASIA ou PAROXYTONO. Será que é contagiosa a
burrice de alguem que falle duma "presidenta innocenta"? Em todo caso,
fique claro que o substantivo masculino JUMENTO admitte o feminino
JUMENTA. Isto posto, vamos a outra questão.


Um attento e attencioso leitor, que sempre me escreve mas prefere
manter-se no anonymato, volta a inquirir-me accerca do dilemma entre
homographia e homophonia que divide as alternativas CORO e CHORO, CHORO
e CHORO ou KHORO e CHORO, considerando que uma accepção é a de canto e a
outra de pranto, face ao facto de que em portuguez coexistem duas
sonoridades para o digramma "CH", como em CHIMERA parallelamente a
CHINELO.


Ja deixei clara a minha preferencia pela forma KHORO para canto e CHORO
para pranto, mas nunca é demais voltar ao thema. Desta feita transcrevo
o pertinente trecho de Nogueira no MANUAL ORTHOGRAPHICO BRAZILEIRO para
depois fazer minhas considerações finaes.


{Segundo alguns a representação da articulação "KÊ" por "CH" em palavras
de origem grega é impropria. Julio Ribeiro não se conforma com ella,
declarando que o facto de exprimir o latim aquella articulação por "CH"
não é razão para que o portuguez o fizesse. Acha que em latim a
posposição do "H" ao "C" é acceitavel porque o "C" naquelle idioma tinha
o som forte de "KÊ" e assim o digramma "CH" podia, com propriedade,
exprimir o "X" (chi grego). No portuguez não, porque o "H" em concurso
com o "C" produz ja o valor de "XÊ" e conferir-lhe ainda o effeito de
"KÊ" importa crear duvidas na pronunciação. Essa observação é de todo
poncto justa e fosse lembrada ao tempo em que se manifestaram as
tendencias graphicas, decerto o "CH" não viria pleitear com o "K" e com
"QU" a representação da articulação guttural "KÊ". Hoje, porem, seria
impossivel qualquer alteração. Por outro lado o dr. Ramiz Galvão entende
que o representante genuino do chi grego é o "CH". A sua revolta é,
pois, em sentido contrario. Acha correctissimas as graphias MECHANICA,
EPOCHA, CHÔRO etc., e lamenta que o uso fixasse outras erroneas como
KILOMETRO, KILOGRAMMO etc., onde a articulação inicial transcreve o chi,
pelo que deviam taes palavras escrever-se: CHILOMETRO, CHILOGRAMMO, como
no italiano. As palavras em que a lettra composta dessa procedencia é
inicial são todas de formação erudita. Dentre ellas as mais vulgares
são: CHALDEU, CHAOS, CHIMERA, CHIMICA, CHIROMANCIA, CHLAMYDE, CHLORO,
CHOLAGOGO, CHOLERA (MORBUS), CHORÉA, CHOREU, CHOREOGRAPHIA,
CHOROGRAPHIA, CHRISMA, CHRISTO, CHROMO, CHRONICA, CHRYSALLIDA, CHYMO,
CHYLO e suas congeneres: CHALDAICO, CHAOTICO, CHIMERICO, CHIROMANTE,
CHLORATO, CHLORAL, CHOLERINA, TERPSICHORE, CHOROGRAPHICO, CHRISMAR,
CHRISTÃO, CHRISTIANISMO, ANTICHRISTO, CHROMATICO, ANACHRONICO,
ANACHRONISMO, CHRONOLOGIA etc. Do elemento ARCHE ha numerosas formações:
ARCHANJO, ARCHONTE, ARCHEOLOGIA, ARCHETYPO, ARCHIDUQUE, ARCHITECTO,
ARCHIVO, MONARCHIA, ANARCHIA, OLIGARCHIA, PATRIARCHADO (PATRIARCHA). A
transcripção por "CH" encontra-se, outrosim, no corpo das palavras
simples ou compostas de origem grega: MACHINA, TECHNICA (TECHNOLOGIA,
POLYTECHNICA, TECHNOGRAPHIA), ORCHESTRA, PSYCHOLOGIA, ECHOLALIA etc. Por
vezes uma alteração prosodica determinou a perda do "H". A influencia do
"E" e do "I" posteriores ao "C" fez-se sentir, apesar da intercorrencia
do "H", em ARCEBISPO, ARCEBISPADO, ARCEDIAGO, ARCEDIAGADO, ARCIPRESTE,
ARCIPRESTADO. Reapparesce o "H" e, com elle, o som guttural na formação
erudita - ARCHIEPISCOPAL. Foi ainda a mesma influencia que transformou a
prosodia e a escripta de CHIRURGIA em CIRURGIA (CIRURGIÃO, CIRURGICO). A
explicação é que estas palavras se vulgarizaram ao passo que as demais,
pela sua applicação erudita, estiveram fora do alcance dessa chymica
popular da linguagem. Outro exemplo se encontra em CATECHISMO, que se
pronunciava dando ao "CH" correspondente ao chi o valor de "KÊ", ainda
conservado em CATECHESE, CATECHIZAR. Mas a acção popular reduziu o "KÊ"
para "CÊ" e da pronuncia CATECISMO resultou essa graphia. Cabe ainda
mencionar a graphia BATRACIOS, indicadora de uma prosodia diversa da
rigorosamente etymologica: BATRACHIOS. Perdeu-se o "H" de ESCOLA,
ELENCO, CARTA, ACROSTICO, CARACTER, COLERA (SENTIMENTO), HYPOCONDRIO e
derivados; AUTOCHTHONE ja se escreve tambem AUTOCTHONE. O dr. Ramiz
Galvão propõe uma distincção graphica entre CARTA (MISSIVA) e CHARTA
(MAPPA), CHARTOGRAPHIA etc., sem embargo da communidade de origem. Esta
distincção não tem sido feita na graphia usual. Está vacillante o "H" de
EPOCA, CORO, MECANICA, MELANCOLIA, que ja preferimos assim. A tendencia
é para simplificar; antes de "E", "I", "Y" (CHELONIO, MONARCHIA, CHYMO,
CHYLO) a representação se manterá, a menos que se dê corrupção
prosodica, como accontesceu em CIRURGIA, CATECISMO. Para manter o valor
guttural sem o "CH" seria preciso confiar esse papel ao "K" ainda mais
extranho à physiognomia das nossas palavras ou o digramma "QU", que,
alem de nada simplificar, geraria duvidas na pronuncia.}


Com effeito, o nosso Nogueirinha é mesmo um authentico vacillão! Si,
como elle às vezes affirma, "a tendencia é para simplificar", seu manual
nem teria razão de ser e elle não precisaria fazer a vehemente defesa
que faz, em outros momentos, da orthographia etymologica: bastava
capitular duma vez às correntes phoneticistas que, ja àquella epocha
(decada de 1920, quando sua obra foi publicada), propunham a reforma que
em 1943 seria officializada no Brazil. Mas, grande conhescedor da lingua
que era, Nogueira teve o merito de registrar posições antagonicas, como
as de Julio Ribeiro e de Ramiz Galvão no paragrapho accyma transcripto
entre chaves. Obviamente estou aqui para referendar a opinião de Galvão
e para refutar a de Ribeiro, si não tambem este blog não teria razão de
ser. Cabe, então, apponctar os casos em que não endosso os commentarios
de Nogueira.


Primeiramente, ja expliquei por que admitto as formas KILOMETRO e
KILOGRAMMA ao lado de CHILIOGONO: teriamos que graphar CHILIOMETRO e a
abbreviatura KM perderia o sentido. O verdadeiro elemento compositivo
para "mil" é CHILIO e não CHILO, que significa "labio". Lamento, neste
poncto, ter de corrigir Galvão, com quem sympathizo. A graphia correcta
de CHYMICA é com "Y" e não com "I" como acceita Nogueira. Em hypothese
nenhuma posso admittir que o "H" se tenha "perdido" em EPOCHA, ESCHOLA,
ELENCHO, CHARTA, CHARACTER, ACROSTICHO, CHOLERICO, HYPOCHONDRIACO ou
AUTOCHTHONE, como deixo claro nos commentarios addicionaes ao meu
DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO. Não vejo necessidade de distinguir CARTA de
CHARTA e acho que o "H" deve valer tanto em CHARTEIRO como em
CHARTOGRAPHO. Nem por sombra acho "vacillante" o "H" de MECHANICA ou
MELANCHOLIA. Quem disse que preferimos assim? Quem preferir que escreva
sem "H"; eu não. Não é o "H" que estaria "vacillante": Nogueira é que
era vacillão! Os unicos casos em que admitto o desapparescimento do "H"
são os de CATECISMO, CIRURGIA, ARCEBISPO etc., consolidados pela
tradição, mais que pela importancia da prosodia. Apenas como excepção
prosodica, analoga à excepcionalidade do "K" em KILOMETRO ou
KALEIDOSCOPIO, é que o adopto em KHORO para differenciar de CHORO, pois
acho CORO simplificado demais. Ja que, pela minha optica, a tendencia
deve ser para complicar (estheticamente fallando, no sentido da
sophisticação classicista), não posso concordar com Nogueira e prefiro
KHORO a CORO, emfim.


Vale salientar o motivo pelo qual Nogueira e outros auctores tanto
alludiam ao facto de, aqui ou alli, alguem "preferir" assim ou assado:
antes de 1943 vigorava um systema dicto "mixto", pelo qual cada
escriptor estaria livre para adoptar graphemas mais ou menos rigorosos,
como os de CARTA ou CORO em relação a CHARTA e KHORO. Dahi que,
contrario que sou a quaesquer leis que tractem phenomenos linguisticos
como si fossem materia politica ou burocratica, continuo partindo do
principio de que cada escriptor tem de ficar à vontade para decidir si
acceita ou não as novas regras, que, em ultima analyse, teem de ser
propostas e não impostas.


Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

SEPTEMBRO/2016: POSTHUMOS THESOUROS QUE NOSSOS THIOS NOS OUTHORGARAM



O leitor que me consulta desta vez sabe que seu nome, Theophilo,
significa devoto de Deus e até brinca que, si fosse "temente a Deus",
deveria chamar-se Theophobo. Sua duvida, entretanto, tem a ver com o
"TH", transcripto do theta: elle quer saber como podemos differenciar
palavras com "TH", como THEOLOGIA, de outras com "T" simples, como
TELEOLOGIA, ja que ambas teem origem grega.


Minha resposta é que, tal como no caso do "PH" em relação ao "F" ou do
"Y" em relação ao "I", a solução practica é decorar os graphemas mais
communs, alem daquelles que chamam a attenção pela apparente homographia
que os phoneticistas induzem a occorrer, como entre THESOURO e TESOURA,
cuja origem ja expliquei neste bloguinho de notas. Vamos conferir o que
nosso collega philologo Julio Nogueira escreve em seu MANUAL
ORTHOGRAPHICO BRAZILEIRO, ao qual não me furto a fazer reparos:


{Esta lettra composta é a transcripção regular do theta grego ja operada
no latim. Como inicial cabe, entre outras palavras, em: THALAMO,
THAUMATURGO, THEATRO, THEBAS, THEMA, THEOREMA, THEORIA, THERAPEUTICA,
THERMAS (THERMOMETRO), THESE, THESOURO, THORAX, THRONO, THRENO, THYRSO e
congeneres. Cahiu o "H" em TROMBOSE.


Do elemento THEOS (deus) encontra-se em THEOLOGIA, THEOGONIA, THEURGIA,
THEODICÉA, THEOSOPHIA, APOTHEOSE, ENTHUSIASMO.


Do elemento ANTHROPOS (homem) apparesce em ANTHROPOIDE, ANTHROPOLOGIA,
ANTHROPOMETRIA, ANTHROPOMORPHISMO, ANTHROPOPHAGIA, MISANTHROPO,
PHILANTHROPO.


Do elemento ORTHO (recto, verdadeiro), em: ORTHODOXO, ORTHOEPIA,
ORTHOGONAL, ORTHOGRAPHIA, ORTHOPEDIA, ORTHOPHONIA, ORTHOPNÉA.


Vê-se no corpo de vocabulos portuguezes sempre correspondendo à mesma
transcripção: CATHEDRA, CATHOLICO, COTHURNO, ABSINTHO, AEROLITHO (tambem
ja escripto sem "TH"), ANACOLUTHO, ANATHEMA, ANESTHESIA, ANTHOLOGIA,
ANTHRAZ, APOTHEMA, ARTHRITE, ARITHMETICA, ASTHENIA, ASTHMA, RHYTHMO,
PARENTHESE, PLETHORA, LETHARGO, APATHIA (SYMPATHIA, ANTIPATHIA,
TELEPATHIA), MYTHO (MYTHOLOGIA), LITHOGRAPHIA, LABYRINTHO. Por falsa
analogia com THESOURO tem-se escripto o "TH" em TESOURA (TONSORIA). É
egualmente indevido o "TH" em TEOR, que nada tem com THEORIA. Escreve-se
erradamente o "TH" em CATEGORIA, onde originariamente existe um tau e
não theta. Por algum tempo se escreveu tambem OUTORGAR e corradicaes com
um "H" improprio. Essa cacographia tabellioa ja vae desapparescendo. O
"H" foi abandonado em palavras que se tornaram muito vulgares, como TIO,
CANTARO, TALO. Por falsa etymologia escreveu-se tambem POSTHUMO com
"TH", practica ja em via de correcção. Suppunha-se haver na composição
desta palavra o vocabulo HUMUS e até em latim se encontra ja a
cacographia POSTHUMUS. Hoje está reconhescido à luz dos estudos
etymologicos e morphologicos que POSTUMUS é simplesmente o superlativo
de POST. O "H" de THEMA leva alguns a usal-o incabidamente em SYSTEMA.
No nome proprio THIAGO o "TH", comquanto indevido, é hoje irremediavel.
O mesmo cabe dizer em relação a THEREZA. Existe "TH" em BISMUTHO,
WERMUTH (de origem alleman).}


O incorrigivel Nogueirinha sempre commette suas incoherencias, fazendo
concessões simplificadoras ao lado de attitudes inflexiveis, estas com
meu inteiro appoio e aquellas com meu repudio. Entre as concessões que
não faço estão as palavras THROMBOSE (na qual o "H" só "cahiu" na cabeça
de quem acceita tal queda), AEROLITHO (na qual o elemento LITHO jamais
pode ommittir o "H", como em LITHOGRAPHIA, mencionada pelo proprio
Nogueira), OUTHORGAR (na qual a cacographia está sanccionada pela
tradição, factor consuetudinario tão importante quanto o scientificismo
etymologico allegado por Nogueira), POSTHUMO (pela mesma razão que rege
o graphema precedente), THIO, CANTHARO, THALLO (nas quaes a allegação de
uso vulgarizado não justifica qualquer simplificação, até porque
Nogueira não abre mão de THEREZA e THIAGO, como eu, nem de CATHEDRA ou
THALAMO), affora os casos typicamente anglophonos (como AUTHOR ou
ARTHUR), ja commentados aqui.


Em summa, não desmeresço os escrupulos de Nogueira em relação a
cacographias como a occorrencia indevida de "TH" em CATEGORIA, SYSTEMA
ou TESOURA, mas nos casos em que a forma historica ja se crystallizou,
como THEREZA, THIAGO ou POSTHUMO, o que deve prevalescer é sempre a
escripta menos simplificada, objectivo maximo dos battalhadores pela
causa preservacionista do idioma.


Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
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sábado, 30 de julho de 2016

AGOSTO/2016: DIRECTO AO PONCTO COM DIREITO AO FEITO



Este mez é o leitor Rodolpho quem me provoca com a seguinte questão:


- Dentre varias palavras que na orthographia official se escrevem como
RET... (RETA, RETO, RETÂNGULO, RETAGUARDA, RETÍFICA, RETÍCULA, RETINA,
RETINÓIDE, RETICÊNCIA, RETOR, RETÓRICA, RETOSCÓPIO), por que você
escreve algumas como RECT... e outras não?


Elle approveita para perguntar de onde vem o "PH" de seu nome e si não
deveria ser "RHODOLPHO", como RHODODENDRO ou "RHODOANNEL". Calma, que na
segunda questão a confusão foi maior. Comecemos por esta.


Em RODOLPHO o "PH" vem do pospositivo "OLPHO" (provindo do graphema
germanico WULF ou WOLF, significando "lobo" e latinizado como "ULPHUS"),
presente em nomes como ADOLPHO, ASTOLPHO ou RANDOLPHO. O antepositivo
"ROD" (significando "fama" ou "famoso") é o mesmo de RODRIGO ou
RODERICO, reduzido para "RO" em ROBERTO, ROGERIO ou RONALDO. Ja na
palavra RODOANNEL o antepositivo RODO é o mesmo de RODOVIA, ROTULA ou
ROTATORIA, ou seja, a matriz latina ROTA que deu RODA em portuguez, e
não a matriz RUPTA que nos deu ROPTA e DERROPTA [DES+ROPTA], ou seja, em
nenhum destes casos se justifica um "RH" que só occorre em palavras de
matriz grega, caso de RHETOR, RHETORICA, RHODODENDRO, RHODOGRAPHIA,
RHACHITICO, RHEUMATICO, RHINITE, RHIZOTONICO, RHYTHMO etc. Meu
DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO traz um glossario desses elementos
compositivos gregos, onde RHODO significa ROSA e não RODA. A proposito,
vejamos o que escreve Julio Nogueira em seu MANUAL ORTHOGRAPHICO
BRAZILEIRO, sempre subjeito às devidas rectificações:


{O grupo inicial "RH" apparesce apenas em palavras de origem grega. O
facto de ser aspirado o "RHO" inicial, determinou a sua transcripção
latina por "RH", a qual passou para o portuguez: RHAPSODO, RHETORICA,
RHEUMATISMO, RHINOCERONTE, RHODIO, RHYTHMO e outras palavras menos
vulgares, alem das de creação moderna RHEOSTATO, RHINALGIA, RHIZOTONICO.
A simplificação ja se deu em RONCAR (latim RHONCARE), RACHIS,
RACHITISMO, RACHITICO, RACHIDIANO e ROMBO (ROMBOIDE). O dr. Ramiz
Galvão, a proposito de RACHIS, propõe RHACHE, protestando contra a
suppressão do "H" do grupo inicial "RH", transcripção normal do "RHO". A
transcripção por "RH", quando inicial do segundo elemento de palavra
composta é, às vezes, esquecida, como se dá em HEMORRAGIA (escripta mais
corrente que HEMORRHAGIA) e CATARRO (mais que CATARRHO).}


Desnecessario reaffirmar que me colloco no circulo dos que, como Ramiz
Galvão, não abrem mão duma transcripção coherente e rigorosa. Assim, nem
pensar em simplificar palavras como RHONCHO, RHONCHAR, RHACHITISMO,
HEMORRHAGIA, HEMORRHOIDA, CATARRHO ou DYSRHYTHMIA. Termos como
RHETINOICO, RHETINOIDE e RHOMBOIDE se incluem nessa categoria.


Affora taes casos de hellenismo, vejamos onde cabe um "CT" e onde a
palavra se grapha como "RET...", a exemplo de RETAGUARDA, RETICENCIA,
RETICULA ou RETINA.


RETAGUARDA vem do italiano RETROGUARDIA, como RETABULO do latim
RETROTABULUM. RETICENCIA vem do latim RETICENTIA e RETICULA vem de
RETICULUM. RETINA vem de RETE/RETIS (rede de vasos sanguineos).


Todos os demais casos (RECTANGULO, RECTOSCOPIO, RECTIFICA, RECTIDÃO,
RECTICORNEO, RECTIFLORO etc.) são correlatos ao graphema "RECT" que
occorre em palavras como CORRECTO, DIRECTO, INSURRECTO, RESURRECTO,
entre outras, dahi por que são equivalentes, em portuguez, os graphemas
"ECT" e "EIT" de DIRECTO e DIREITO, AFFECTO e AFFEITO, OBJECTAR e
SUBJEITAR, PROVECTO e PROVEITO, CIRCUMSPECTO e SUSPEITO, evidenciando
que a lettra "C" é tão indispensavel quanto o "I" em FACTO e FEITO,
SATISFACTORIO e SATISFEITO, sendo indevidas as graphias "CORRETO" ou
"AFETO" que os reformistas nos tentam impor.


Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
os archivos do DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO e de outras obras pertinentes.


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sábado, 2 de julho de 2016

JULHO/2016: ANNOITESCERÁ ADVERMELHADO E ADMANHESCERÁ ALLARANJADO



Desta vez é o leitor Affonso quem me traz suas duvidas. A primeira é
sobre seu proprio nome: lembrando o caso do leitor Euclydes (que se
differenciava do grego Euclides), Affonso me indaga o motivo pelo qual o
mesmo nome apparesce com "PH" em Alphonso. Sua curiosidade se aguçou
depois que commentei aqui sobre os casos em que o "PH" não deve ser
confundido com o "F". Outra questão levantada pelo Affonso é a seguinte:


- Você escreve o verbo ADMANHESCER com o prefixo "AD", mas ANNOITESCER
com geminação do "N". Explique-me essa differença, Glauco, e tambem
sobre outros verbos começados por "AD".


Optimo, Affonso, você tocou em ponctos interessantes. Começando pelos
verbos, recapitulemos a historia toda de maneira bem objectiva. Antes
das reformas phoneticas da decada de 1940 (aqui e em Portugal), vigorava
na lingua portugueza um systema informal dicto "mixto", que dava ao
escriptor larga liberdade para adoptar (ou não) alguns graphemas mais
complexos, alem daquelles tradicionalmente acceitos. Assim, ao lado de
expressões como GRAMMATICA, PSYCHOTHERAPIA, DACTYLOGRAPHIA, PHILOSOPHIA,
MYTHOLOGIA, MATHEMATICA, RHETORICA, PHYSICA, CHYMICA, BELLAS LETTRAS ou
SCIENCIAS EXACTAS, que mantinham as lettras duplas e mudas, bem como o
"Y", o "PH", o "TH", o "RH" e o "CH" (com valor de "QU"), varias outras
palavras podiam ser simplificadas, como CHARTA, PHANTASIA, QUATTRO ou
SANCTO, que ja apparesciam nos textos mais descuidados como CARTA,
FANTASIA, QUATRO e SANTO. Até intellectuaes respeitaveis incorriam nesse
relaxamento, talvez por commodismo, talvez por desattenção.


O mesmo se dava com o suffixo "ESCER" dos verbos inchoativos, que ora
seguiam a matriz latina, como em EFFERVESCER, ora seguiam um criterio
dicto "vernaculo", como em EMMAGRECER. Quanto ao prefixo "AD", era
mantido em verbos herdados do latim, mas substituido por um "A"
prothetico nos verbos formados ja no portuguez. Assim, ACCRESCER
[AD+CRESCER] mantinha a assimilação geminada, mas ACREDITAR
[A+CREDITO+AR] não obedescia a mesma logica, como APPROVAR [AD+PROVAR]
em relação a APROVEITAR [A+PROVEITO+AR]. Para augmentar a confusão, nem
sempre o prefixo "AD" soffria assimilação geminativa, como deante das
consoantes "J", "M", "Q" ou "V", mas taes excepções não eram
arbitrarias, pois estavam consolidadas nas novilatinas e até no inglez.
Assim, balanceando a relação entre o "AD" e o "A" prothetico, tinhamos
um quadro verbal deste typo:


ABBREVIAR geminava, mas ABRAZILEIRAR não;
ACCOMMODAR geminava, mas ACARIOCAR não;
ADDICIONAR geminava, mas ADEANTAR não;
AFFIRMAR geminava, mas AFRANCEZAR não;
AGGREGAR geminava, mas AGUARDAR não;
ADJECTIVAR juxtapunha, mas AJUNCTAR não seguia o criterio;
ALLITTERAR geminava, mas ALINHAR não;
ADMINISTRAR juxtapunha, mas AMESTRAR não seguia o criterio;
ANNOTAR geminava, mas ANOITECER não;
APPOR geminava, mas APORTUGUEZAR não;
ADQUIRIR juxtapunha, mas AQUINHOAR não seguia o criterio;
ATTRAHIR geminava, mas ATRAVESSAR não;
ADVERTIR juxtapunha, mas AVENTURAR não seguia o criterio.


Ora, a reforma nivelou tudo por baixo e eliminou quaesquer geminações
(menos RR e SS, como em ARRISCAR ou ASSENHORAR), mas os indecisos
academicos se exquesceram de padronizar os inchoativos, mantendo alguns
verbos em "ESCER" ao lado de outros em "ECER". Que faço eu? Padronizo
tudo, mas na direcção opposta à da pretensa simplificação: alem de
restaurar aquillo que os reformistas aboliram, adoptei "ESCER" em todos
os casos, egualando aquelles como AGGRADESCER e EMMUDESCER àquelles como
ACCRESCER e EFFERVESCER. Quanto ao "A" prothetico dos verbos
approximativos (ou assimilativos, como queiram), troquei-o por "AD" até
nos casos typicamente vernaculos, como ABBRAZILEIRAR, ACCARIOCAR,
ADJOELHAR, ADMINEIRAR, APPORTUGUEZAR, ADVERMELHAR etc. Isso explica a
juxtaposição nos casos em que a regra a exige, como ADJUNCTAR, ADMESTRAR
ou ADVENTURAR. No caso de ACQUINHOAR (como em ACQUIESCER), o "AD" se
converte em "AC". Dahi por que, ao lado de ANNOITESCER, obrigo-me a
graphar ADMANHESCER e não "AMMANHESCER", forma inexistente no idioma.


Approveitando a deixa, restaurei o rigor orthographico tambem naquelas
palavras que o systema mixto mantinha numa morphologia meia bocca, taes
como DITHONGO ou CHIMICA, que os phoneticistas reformaram como DITONGO e
QUÍMICA, mas que na forma correcta devem ser DIPHTHONGO e CHYMICA. Em
summa, alem de rigoroso sou coherente, ao contrario dos reformistas de
meia tigela que tiraram o "S" de SCIENCIA mas não tiveram colhão para
propor a consequente forma "CONCIENCIA".


Antes que alguem pergunte que auctoridade tenho eu para systematizar
nossa orthographia, allego que tenho a mesma legitimidade individual
(como escriptor e como estichologo) que tem qualquer academico, por mais
illustre que este seja. Todos somos philologos quando se tracta de zelar
pela integridade da nossa lingua nativa e quando temos conhescimento de
causa para theorizar e practicar aquillo que professamos, ué! Ninguem é
obrigado a me seguir, como ninguem pode me obrigar a escrever de accordo
com um "acordo" com o qual não concordo, ora!


Falta explicar ao Affonso por que alguns de seus xarás se assignam como
Alphonso. Paresce que a origem do nome não é latina, mas visigothica: a
palavra FUNS, latinizada como PHONSUS ou FONSUS, significaria "prompto",
"preparado" ou "apto". Assim, palavras como ADAL (nobre) ou HILDE
(battalha) poderiam ser combinadas para gerar conceitos typo "nobremente
preparado" (ADALPHONSUS) e "prompto para a battalha" (HILDEPHONSUS). Na
forma FONSUS, o prefixo "AD" geraria a assimilação de ADFONSUS para
AFFONSUS, mas na forma PHONSUS o "AD" se alteraria para "AL", talvez por
analogia contracta com ADAL+PHONSUS. O facto é que esse nome passou para
o francez e o inglez com "PH" e para o hespanhol com "F": ALFONSO. Em
portuguez ficou como AFFONSO, que os phoneticistas simplificaram para
AFONSO, obcecados que são contra as lettras duplas. Na practica, os
xarás devem saber que, si forem bem preparados, estarão aptos para
graphar das duas maneiras, ALPHONSO e AFFONSO, com a mesma convicção que
tenho ao graphar Mattoso com "T" geminado.


Portanto, não quero saber quem pintou a Casa Verde. Não accaptarei o
acto dos academicos e, como diria Gil, emquanto a goyabada for feita de
goyaba, escreverei com minha sciencia e minha consciencia, ainda que
annoitesça advermelhado e admanhesça allaranjado, ou por isso mesmo...


Aos interessados deixo o link para um menu na nuvem donde podem baixar
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sábado, 4 de junho de 2016

JUNHO/2016: PARA GRAPHAR O "F" NÃO TEMOS QUE GARFAR O "PH"



Na postagem do mez passado commentei a questão levantada pelo leitor
Euclydes accerca do emprego do "Y" e do "I" em palavras de origem
grecolatina. Agora commento o uso do "PH" e do "F", complementando a
dica sollicitada por elle.


Si nos hellenismos latinizados a coexistencia do "I" e do "Y" pode
suscitar duvidas, a confusão do "PH" e do "F" só occorre no ambiente
novilatino, uma vez que no grego o "F" não existia. Eis a razão pela
qual actualmente convivemos com vocabulos como EFFEITO ao lado de
EPHEBO, OFFICIO ao lado de OPHIDIO, FETO ao lado de PHOTO, FALLACIA ao
lado de PHILAUCIA ou FRUCTIFERO ao lado de PHOSPHORO. Dahi por que a
melhor dica seria a de que o "PH" só occorre em palavras de origem
grega, emquanto o "F" indica matriz latina. Differenciar umas das outras
exige alguma experiencia, mas sempre são uteis aquellas tabellinhas
mnemonicas que, a exemplo das tabuadas arithmeticas, adjudam a
accostumar o estudante (ou o estudioso) aos casos mais typicos.


Meu DICCIONARIO ORTHOGRAPHICO traz tabellas mais completas, mas aqui dou
uma admostragem dos casos de latinismos e hellenismos matriciaes que
geram e disseminam derivados pelo idioma. Primeiro a tabella parcial de
latinismos:


FALCI em FALCIFORME, FALCIMALLEO
FASCIO em FASCIOTOMIA
FEITO em AFFEITO, CONFEITO, DEFEITO, EFFEITO, PERFEITO
FENDER em DEFENDER, INFENDER/INFENSO, OFFENDER
FERIR em AFFERIR, CONFERIR, DIFFERIR, INFERIR, PREFERIR, TRANSFERIR
FERO em FRUCTIFERO, GYPSIFERO
FICIO em ARTIFICIO, OFFICIO, ORIFICIO, PASTIFICIO
FIDE [ou FIDEI] em FIDEDIGNO, FIDEICOMMITTENTE
FIDO em MULTIFIDO, PENNATIFIDO
FIGURAR em AFFIGURAR, CONFIGURAR, DESFIGURAR, PREFIGURAR
FILI em FILIFORME, FILIGRANA
FINI em AFFINIDADE, FINIANNUAL, FINISEMANAL, FINISECULAR
FIRMAR em AFFIRMAR, CONFIRMAR
FISSI em FISSIDACTYLO
FIXAR em AFFIXAR, PREFIXAR, TRANSFIXAR
FLABELLI em FLABELLIPEDE
FLAMMI em FLAMMIGERO
FLAVI em FLAVIPEDE
FLIGIR em AFFLIGIR, CONFLIGIR/CONFLICTO, INFLIGIR
FLUCTI em FLUCTISONANTE, FLUCTIVAGO
FLUIR em AFFLUIR, EFFLUIR, INFLUIR, REFLUIR
FLUO em SUPERFLUO, MELLIFLUO
FLUVIO em EFFLUVIO, FLUVIOMETRO
FOLIO em MILLEFOLIO, OPPOSITIFOLIO, QUADRIFOLIO
FORMAR em CONFORMAR, DEFORMAR, PERFORMAR, REFORMAR, TRANSFORMAR
FORMICI em FORMICIVORO
FORMIO em CHLOROFORMIO, LYSOFORMIO
FRAGI em FRAGIFERO
FRAGIO [ou FRAGO] em NAUFRAGIO, OSSIFRAGO
FRATRI em FRATRICIDA
FRIGI em FRIGIFUGO
FRONDI em FRONDICOLA
FRONTAR em AFFRONTAR, CONFRONTAR, DEFRONTAR
FUCI em FUCICOLA, FUCIVORO
FUGO em CENTRIFUGO, HYDROFUGO, VERMIFUGO
FULMINI em FULMINIVOMO
FULVI em FULVIROSTRO
FUMI em FUMIFLAMMANTE, FUMIFUGO
FUNDIR em AFFUNDIR, CONFUNDIR, DIFFUNDIR, INFUNDIR, TRANSFUNDIR
FUNI em FUNIFORME
FURCI em FURCIFORME
FUSCI em FUSCIROSTRO


Note-se que varios exemplos são composições mixtas com hellenismos, como
CHLOROFORMIO, FASCIOTOMIA, FISSIDACTYLO, FLUVIOMETRO, GYPSIFERO e
HYDROFUGO, mas taes hybridismos são opportunos para que attentemos ao
facto de que nem sempre a presença de elementos compositivos gregos
basta para justificar um "PH" em qualquer caso.


A seguir, collo uma tabellinha de affixos gregos iniciados por "PH",
para contrastar com a lista precedente:


PHACO em APHACIA, PHACOPYOSE
PHAGO [ou PHAGIA] em PHAGOCYTOSE, ANTHROPOPHAGO
PHALACRO em PHALACROCARPO
PHALLO em PHALLOCRACIA
PHANERO em PHANEROGAMICO
PHANO em DIAPHANO
PHANTA em HIEROPHANTA, SYCOPHANTA
PHARMACO em PHARMACODYNAMICA
PHASEOLO em PHASEOLIFORME
PHASIA em DYSPHASIA, PARAPHASIA
PHATNIO em PHATNIORRHAGIA
PHELLO em PHELLOGENIO
PHEMIA em EUPHEMISMO, DYSPHEMIA
PHENGO em PHENGOPHOBIA
PHENO em PHENOLOGIA, PHENOMENO
PHEO em PHEODERMICO
PHILO [ou PHILIA] em PHILOSOPHIA, COPROPHILIA
PHLEBO em PHLEBOTOMIA
PHLEO em PHLEOPHAGIA
PHLOGO em PHLOGISTICO
PHLOO em PHLOOPLASTIA
PHOBIA [ou PHOBO] em PHOTOPHOBIA, PHOBOPHOBO
PHOLO [ou PHOLI] em PHOLIDOTO
PHONO em LUSOPHONO, PHONOGRAMMA
PHORESE em ELECTROPHORESE
PHORO em SEMAPHORO, PHOSPHORO
PHOS [ou PHOSIA] em PHOSPHENO, CHROMOPHOSIA
PHOTO em PHOTOPHOBIA, PHOTOMETRO
PHRAGMATO em PHRAGMATOPHORO
PHRAGMO em PHRAGMOSE, DIAPHRAGMA
PHRASE [ou PHRASTICO] em PERIPHRASE, METAPHRASTICO
PHRENO em PHRENOLOGIA
PHRYNO em PHRYNOMORPHO
PHTHIRO em PHTHIRIASE
PHTHISIO em PHTHISIOLOGIA
PHYCO em PHYCOLOGIA
PHYLLO em PHYLLODENDRO, CHLOROPHYLLA
PHYMO [ou PHYMATO] em PHYMATOSO
PHYRO em GRANOPHYRO
PHYSIO [ou PHYSE] em PHYSIOTHERAPICO, APOPHYSE
PHYTO em PHYTOCHYMICA, PHYTOTHERAPIA


Obviamente não estou aqui suggerindo que listas desse typo sejam
guardadas na poncta da lingua (ou dos dedos), mas quem as consulta e
reconsulta vae se lembrar de que FALLO (verbo FALLAR) não se escreve
como PHALLO (penis), nem FACA como PHOCA, nem FRAGMENTO como DIAPHRAGMA,
nem AFRODESCENDENTE como APHRODISIACO, nem DESAFFORO como APHORISMO.


Outros paradigmas são mencionados no MANUAL ORTHOGRAPHICO BRAZILEIRO de
Julio Nogueira, do qual transcrevo o trecho pertinente, resalvados os
apponctamentos finaes, ja que nosso querido Nogueira nunca excappa de
algum quinau da parte dos que prezam uma escripta rigorosa e coherente.


{O digramma "PH" representa o "PHI" grego, de que foi transcripção
latina. Apparesce como inicial em muitas palavras: PHAGOCYTO, PHALANGE,
PHALENA, PHARMACIA, PHAROL, PHARYNGE, PHASE, PHENICO, PHENIX, PHENOMENO,
PHLEBITE, PHLEGMÃO (popularmente FLEIMÃO), PHLEUGMA, PHILTRO, PHOCA,
PHOSPHORO, PHRASE, PHRYGIO, PHYLLOXERA, PHYSICA, PHYSIOGNOMIA,
PHYSIOLOGIA, e corradicaes de todas essas palavras, alem de grande
numero de palavras eruditas applicadas às sciencias e às artes.


Do elemento PHONÉ (voz) apparesce em PHONEMA, PHONETICA, PHONOLOGIA,
GRAMMOPHONE, PHONOGRAPHO, TELEPHONE, APHONIA, ANTIPHONA, SYMPHONIA, etc.


Do elemento PHILOS (amigo), em: PHILHARMONICA, PHILANTHROPO, PHILAUCIA,
PHILOLOGIA, PHILOSOPHIA, PHILATELIA, THEOPHILO, PHILIPPE, HYDROPHILO,
BIBLIOPHILO, etc. E alguns hybridismos, como: FRANCOPHILO, GERMANOPHILO,
etc.


Do elemento GRAPHO (eu escrevo), em: GRAPHIA, ORTHOGRAPHIA, NEOGRAPHIA,
CACOGRAPHIA, GRAPHOLOGIA, GEOGRAPHIA, CHOROGRAPHIA, OCEANOGRAPHIA,
PHONOGRAPHO, TELEGRAPHO, HIEROGRAPHIA, PHOTOGRAPHIA, LITHOGRAPHIA.


Do elemento MORPHÉ (forma), em: MORPHOLOGIA, MORPHOGENIA, MORPHEMA,
MORPHEU, MORPHINA (MORPHINOMANO), AMORPHO.


Do elemento PHOTÓS (luz) em: PHOTOGRAPHIA, PHOTOTYPIA, PHOTOMETRO,
PHOTOPHOBIA.


Do elemento PHAG (de PHAGEIN, comer), em: PHAGOCYTO, ANTHROPOPHAGO,
GEOPHAGO (que come terra).


Do elemento KEPHALÉ (cabeça), em: CEPHALALGIA, ENCEPHALO, ACEPHALO,
MACROCEPHALO, MICROCEPHALO, HYDROCEPHALIA, BUCEPHALO (cabeça de boi. Era
o nome do cavallo de Alexandre).


Do elemento PHÓBOS (medo, horror, adversão), em: PHOBIA, HYDROPHOBIA,
XENOPHOBIA (adversão ao extrangeiro), PHOTOPHOBIA.


No corpo da palavra são innumeras as vezes em que apparesce o "PH":
APHASIA, APHELIO, APHORISMO, APHTHA, APOCRYPHO, APOSTROPHE, OPHIDIO,
OPHTHALMIA, ELEPHANTE, NYMPHA, LYMPHA, DELPHIM, PORPHYRO. O esquecimento
prosodico se deu em PHTHISICA pelo que ora se representa ainda o "TH"
correspondente ao theta: THISICA, ora se reduz a palavra a TISICA, forma
que ja nos paresce preferivel. Outro tanto cabe dizer em relação a
DIPHTHONGO, TRIPHTHONGO, que escrevemos DITONGO, TRITONGO. Somente os
irreductiveis hellenizantes pronunciam ainda hoje TRIFTONGO, DIFTONGO. O
digramma "PH" reduziu-se a "F" em FAISÃO (PHASIANA, ave do rio Phasis)
em FEIJÃO (PHASEOLUS, emprestimo do grego). Ha tendencia pronunciada
para escrever FANTASIA, FANTASMA, FRENESI, FRENETICO, formas ja hoje
preferiveis. Quanto a FANAL esta deve ser a graphia, ja auctorizada pela
transcripção do baixo latim FANALE. Ainda não se generalizou a escripta
FRASE.}


Começando pelo fim, replico que PHRASE com "F" é coisa que jamais
poderia se "generalizar", a menos que, ja na decada de 1920, Nogueira
acceitasse duma vez a reforma que, infelizmente, accabou sobrevindo em
1943. Si Nogueira não se posiciona entre os que chama de "irreductiveis
hellenizantes", eu me posiciono entre os irreductiveis militantes
etymologistas que escrevem PHTHISICA e DIPHTHONGO com a maior convicção.
Va la que alguns de nós não façamos questão de graphar PHAISÃO, PHLEIMÃO
ou PHEIJÃO, mas não podemos abrir mão de PHANTASIA, PHANTASMA ou
PHRENESI, absolutamente. Quanto ao baixo latim, Nogueira o invoca para
justificar uma simplificação, mas quando se tracta de invocar
etymologismos consuetudinarios para justificar uma forma estheticamente
melhor, como CALIPHA ou CAMPHORA (bem como COLYSEU ou SEPULCHRO), ahi
elle vem dizer que são fontes illegitimas. Até paresce vicio ideologico
esquerdizante, livrae-nos Zeus! Apesar de tudo, nosso Nogueirinha
permanesce digno de carinhosa memoria, que Zeus o tenha.


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